Resumo
Esse guia de como trocar cordas do violão ensina o músico através desse processo a renovar o timbre, preservar a integridade física do instrumento através da substituição correta das cordas, combatendo a fadiga do material e a oxidação.
Aqui é detalhado o uso de ferramentas essenciais, como o enrolador de cordas e o grafite na pestana, comparando as abordagens de troca individual para manter a estabilidade do tensor ou a remoção total para limpeza profunda da escala.
Com passos específicos para o sistema de pinos do violão de aço e as laçadas de luthier no nylon, o texto orienta sobre a técnica de stretching (alongamento) para estabilizar a afinação e alerta contra erros comuns, como o excesso de voltas na tarraxa ou o uso de produtos químicos que danificam a madeira.
Introdução: Porque trocar as cordas?
Quando você sente que o som do seu instrumento está “morto”, sem brilho, projeção menor, mais abafado ou que a afinação não está segurando mais como devia, há grandes chances que isso seja sinal da fadiga do material das cordas e não um problema no violão em si.
Com o passar do tempo os efeitos do suor e do ácido do corpo humano através dos dedos vão causando danos nos materiais das cordas mesmo que elas sejam limpas e conservadas corretamente. Esses efeitos alteram drasticamente o timbre e a entonação das cordas (como elas deveria estar afinadas ao longo do braço), podendo causar nas cordas de nylon a perda de elasticidade do polímero ou nas de aço causar oxidação.
Trocar as cordas desse instrumento é também uma medida de manutenção preventiva. Cordas velhas tendem a acumular detritos e sujeiras que agem como uma lixa nos trastes e na escala, acelerando o desgaste dos mesmos. Além disso, cordas que na medida do tempo vão perdendo sua integridade física geram tensões irregulares sobre o tensor e cavalete, gerando assim empenamentos indesejados a longo prazo.
Neste guia você vai aprender como fazer a troca das cordas de forma segura, independente e em casa mesmo, não importando qual seja o seu nível de interesse e domínio no violão. Essa é uma técnica de luthieria básica no qual vai te proporcionar mais autonomia, economizar dinheiro com manutenções externas e, acima de tudo, garantir que o seu violão entregue 100% do potencial acústico para o qual foi projetado.
Ferramentas Necessárias: O Kit de Sobrevivência
Antes de começar a afrouxar a primeira corda, é fundamental que você realize isso em um espaço e com ferramentas minimamente adequadas para evitar problemas como forçar a cabeça (headstock), braço ou corpo do instrumento sem necessidade e de uma forma perigosa, além também de correr o risco de arranha-lo. Segue uma lista simples de ferramentas que podem te ajudar nessa tarefa:
Enrolador de Cordas (String Winder)
É uma ferramenta que se encaixa na borboleta da tarraxa e permite gira-la com velocidade tanto para afinar quanto desafinar. Alguns modelos já vêm com um “sacador de pinos” acoplado, o que é muito prático quem toca violão de aço. Esse processo pode ser feito sem utiliza-lo, mas com esse acessório fica muito mais rápido e prático.

Alicate de Corte
Um alicate de corte pequeno e bem afiado garante que ao tirar os excessos da sobra da corda (nas pontas) o acabamento fique limpo evitando que pontas de aço (principalmente) espetem seus dedos ou furem a sua bag (capa).

Apoio de Braço (Neck Rest)
É uma ferramenta que mantém o violão estável, muito utilizada por luthiers profissionais. Caso não seja possível ter um, uma toalha enrolada ou um travesseiro firme servem para elevar o braço e facilitar o acesso às tarraxas.

Pano de Microfibra, Flanela ou Pedaço de Tecido de Algodão de Roupa Velha
Uma vez que as cordas foram removidas, agora é o momento de limpar a escala com muito mais facilidade. Acumulamos gordura e suor em locais que são impossíveis de alcançar com as cordas instaladas.

Lubrificante de Pestana (Grafite)
Passar um pouco de grafite nos sulcos da pestana (nut) ajuda a corda a deslizar sem travar, eliminando estalos chatos que podem acontecer durante a afinação. Para isso pode-se utilizar simples escolar 2B por exemplo.

Preparação: Tirar todas ou uma por uma?

É uma dúvida comum a muitos praticantes, independente se iniciantes ou profissionais no instrumento, se devemos ou não remover todas as cordas e troca-las de uma vez ou fazer isso uma por uma. A resposta para isso dependente do objetivo do músico com essa manutenção. Vamos analisar cada uma das abordagens.
Trocar Corda por Corda (Segurança e Estabilidade)

Essa abordagem implica em remover e substituir apenas uma corda por vez enquanto mantem as outras tensionadas com a pressão constante sobre o rastilho e principalmente o tensor (a barra de metal interna que contrabalanceia a força das cordas).
Você pode preferir seguir essa abordagem caso a regulagem do seu violão esteja perfeita e seu objetivo é apenas renovar a qualidade do som de seu instrumento. Isso a torna extremamente segura, porque evita um choque de descompressão no braço e mantem a afinação estável muito mais rápido após a troca. É uma técnica ideal para quem tem, por exemplo, um show ou ensaio logo em seguida.
Trocar Todas as Cordas de uma Vez (Limpeza e Saúde)

Uma vez que todas as cordas forem removidas, essa abordagem permite que você antes de substitui-las, caso necessário, limpe, hidrate a madeira da escala (geralmente de Rosewood ou Ébano) e realize o polimento dos trastes com facilidade. Além disso, se precisar, pode também realizar inspeções mais detalhadas no rastilho e na pestana caso estejam causando ruídos indesejados.
A remoção de todas as cordas de uma vez do instrumento não vai causar danos ao mesmo, até porque são construídos para aguentar isso, mas exige um cuidado maior. Essa é a solução ideal para quando você precisa realizar uma limpeza profunda.
Dica de Especialista
Caso optar por tirar todas as cordas do violão, evite deixa-lo sem cordas por muitos dias. O braço desse instrumento foi projetado para trabalhar sobre pressão constante, e uma vez que foi deixado para relaxar por muito tempo, pode acabar por exigir um ajuste no tensor posteriormente. Se você perceber que após a troca total das cordas, o violão começou a trastejar ou está mais difícil para tocar, é sinal de que o braço precisara de algumas horas para se reajustar à nova pressão.
Passo a Passo: Violão de Aço (Sistema de Pinos)
O processo para trocar as cordas em um violão de aço (geralmente Folk ou Dreadnought) é parecido com o de nylon mas tem algumas diferenças. Isso deve principalmente porque a pressão das cordas nessa estrutura desse instrumento é muito maior que no de nylon.
Siga os passos a seguir para garantir uma instalação profissional:
Removendo os Pinos com Cuidado

Uma vez que as cordas estejam frouxas, utilize cuidadosamente o entalhe do seu enrolador de cordas para alavancar o pino para cima.
Dica de Especialista
Tenha cuidado na hora de remover os pinos do cavalete. Evite utilizar alicate comum diretamente no pino, pois ele pode ser danificado assim como tampo ou o cavalete. Se o pino estiver muito preso, tente empurrá-lo por dentro do corpo do violão (pela boca) com a mão em vez de puxar por cima com força bruta.
Fazer a “Dobra” na Esfera da Corda

Faça uma leve dobra (cerca de 45°) na ponta onde fica a esfera (ball-end) da cordas antes de inseri-la no furo do cavalete. Isso ajuda a esfera a se acomodar na lateral do pino, e não exatamente embaixo dele. Isso evita que a corda empurre o pino para fora quando você começar a dar tensão.
Travamento no Cavalete

Insira a corda no furo, coloque o pino com a fenda voltada para a corda e empurre-o. Enquanto segura o pino com o polegar, dê um puxão firme na corda para cima. Você deve sentir algo como um “click” seco. Isso indica que a esfera travou na madeira do cavalete e o pino está apenas servindo de guia, como deve ser.
Medindo a “Folga” na Tarraxa

Uma vez travada no cavalete, passe a corda pelo furo da tarraxa. A quantidade ideal de voltas na tarraxa é entre 3 e 4 voltas para as mais agudas, e 2 e 3 para as mais graves. Você pode medir isso através da seguinte técnica: Uma vez que a corda passou pelo furo da tarraxa, puxe a corda até que ela fique esticada e, em seguida, recue o equivalente à distância de uma casa e meia da escala (ou quatro dedos de altura sobre a escala). Essa folga é o que vai virar as voltas no poste da tarraxa.
Enrolando com Organização
Ao girar a tarraxa, certifique-se de que cada volta passe por baixo da anterior. Isso cria um ângulo de pressão maior sobre a pestana (nut), o que melhora o sustain e evita vibrações indesejadas (“buzz” por exemplo). Corte o excesso com o alicate apenas quando a corda já estiver com uma pré-afinação.
Passo a Passo: Violão de Nylon (Sistema de Laçadas)


Trocar as cordas em um violão de nylon, diferentemente do aço que tem o sistema de pinos, exige um pouco mais de habilidade manual para fazer um sistema de laçadas bem feitas. Ao invés da pressão da força bruta dos pinos, aqui é necessário criar laços com uma física adequada. Se não forem bem feitos, a corda escorrega, desafina constantemente e pode até mesmo, no pior dos casos, arrancar e chicotear o tampo do violão, deixando marcas permanentes.
Siga este roteiro para garantir uma fixação firme e elegante:
O Nó de Luthier no Cavalete


Passe a ponta da corda pelo furo do cavalete (cerca de 8 a 10 cm para fora). Dê uma volta por trás da própria corda e passe a ponta por baixo da laçada que se formou.
As cordas mais agudas (primas) são mais lisas e escorregadias, de duas ou três voltas por baixo da laçada antes de apertar. Já as cordas mais graves (bordões) são revestidas de metal e mais grossas, logo uma única volta costuma ser o bastante.
Para evitar que o nó se desfaça sob tensão, certifique-se que a sobra da corda fique apontada para baixo, encostada na madeira do cavalete e não para cima.
Travamento na Tarraxa (Rolo de Nylon)


Na cabeça (headstock) do violão, alinhe o furo do rolo para cima e passe a corda por debaixo dela mesma antes de começar a girar. Isso vai criar um travamento automático, o qual conforme a borboleta vai sendo girada, a própria corda vai se prender cada vez mais, impedindo que o nylon escorregue.
Organização das Voltas

Ao enrolar a borboleta da tarraxa, guia a corda para que durante cada volta, ela fique organizada e não encavalada. A corda deve sair no rolo, no caso do violão de nylon, o mais reta possível em direção à pestana, evitando ângulos laterais excessivos que podem causar estalos ou dificuldades na afinação fina.
Atenção ao “Efeito Chicote”
Pode acontecer, principalmente se o músico for iniciante e ainda não tiver experiência, de o nó da corda enquanto está sendo afinada escape, chicoteando o tampo com força. Caso queira proteger o tampo de seu violão, coloque um pedaço de papelão ou uma flanela atrás do cavalete enquanto tensiona as cordas pela primeira vez.
Estabilidade e Afinação: O Alongamento (Stretching)
Uma vez que as cordas foram devidamente colocadas, agora elas vão passar por um assentamento, o qual a afinação vai oscilar muito, principalmente as de nylon. Essas possuem uma elasticidade natural e que precisa ser totalmente assentadas para evitar que a afinação pare de oscilar. O alongamento (stretching) é a técnica utilizada para deixar o violão pronto para uso assim que as cordas forem trocadas.
Como fazer o alongamento sem arrebentar

Com o violão afinado, ou próximo disso, use o polegar e indicador para pinçar a corda a partir de cerca de 10cm do cavalete e puxe-a levemente para cima (afastando-a do tampo) por cerca de 1 ou 2 centímetros. Repita esse movimento ao longo de toda a extensão de cada corda, indo do cavalete até a pestana.
Após esse movimento ser realizado diversas vezes conforme a extensão da corda, a afinação vai cair drasticamente. Isso acontece porque esse processo elimina as microfolgas que ficam na corda nas partes escondidas da tarraxa e nós do cavalete. Afine novamente e repita esse processo até que a queda na afinação seja mínima.
Quanto tempo para as cordas de Aço alongarem?
As cordas de metais estabilizam muito rápido. Geralmente, apenas duas rodadas de alongamento (stretching) são o bastante para que ela mantenha a afinação. A corda mais suscetível e propensa a quebras caso esse movimento de alongamento seja exagerado é a terceira (corda sol) de expessura geralmente .023 ou similar.
Quanto tempo para as cordas de Nylon alongarem?
Cordas de nylon tendem a demorar mais tempo porque são polímeros e fluem sob tensão. Elas continuaram esticando pelas primeiras 24 a 48 horas. Repita o processo de alongamento manual algumas vezes mais em outros dias para acelerar a expansão das fibras. Você pode ainda deixar o violão afina meio tom acima na primeira a noite para acelerar esse processo.
Verificação da Pestana (Nut)
Caso durante a afinação você ouvir um estalo (um som de click) enquanto afina, a corda está prendendo nos sulcos da pestana. Quando isso acontece pode atrapalhar a estabilidade da afinação. Caso isso ocorra, afrouxe a corda e verifique se há sujeira ou se o sulco está muito apertado. Caso necessário, conforme escrito nos tópicos anteriores, passe um pouco de grafite através do uso de um simples lápis escolar B2 por exemplo para que a corda deslize sobre o sulco durante a afinação.
Erros Comuns que Danificam o Violão durante a Troca das Cordas
Trocar as cordas do violão quando feita de forma correta e observando e agindo corretamente conforme o processo aqui explicado tende a ser uma tarefa relativamente simples mas um pouco trabalhosa. Um erro nessa etapa pode resultar em rachaduras, empenamentos ou componentes espanados.
Cortar as cordas sob tensão total


Nunca, em hipótese alguma, use o alicate para cortar uma corda que ainda está esticada e afinada. Uma vez feito isso, irá ocorrer uma liberação brusca de energia causando um efeito chicote que pode ferir seu corpo ou seus olhos, mecanicamente gerar um choque desnecessário no tensor além de o metal ou o nylon da corda chicotear no tampo ou na cabeça deixando marcas profundas. Sempre deixe a corda totalmente afrouxada até que ela fique totalmente mole antes de usar o alicate.
O excesso de voltas na tarraxa
Há uma crença no qual muitas pessoas acreditam que quanto mais a corda enrolada no poste da tarraxa, melhor. O correto é exatamente ao contrário, pois um excesso de voltas dificulta a estabilização da afinação de forma crônica além de levar ao desgaste prematuro dos dentes de metal das engrenagens das tarraxas. No violão de aço, o ideal são 2 a 3 voltas enquanto no de nylon, entre 3 e 4.
Inverter a ordem das cordas no rastilho
As cordas do violão possuem espessuras (calibres) diferentes. Por isso o rastilho e a pestana são preparados para isso de forma que possuem compensações de oitavas e profundidades específicas para cada corda. Se você inverter, por exemplo, a corda mais aguda Mi (E) com o La (A) grave, a pressão sobre o cavalete será irregular, o que pode causar ruídos (trastejos) e prejudicar a entonação do instrumento além da tocabilidade.
Usar produtos de limpeza domésticos

Não pode ser utilizado diversos tipos de produtos de limpeza e químicos nas cordas ou mesmo no instrumento com o intuito de limpa-lo ou deixa-lo mais brilhoso. Esses tipos de produtos podem causar danos que afetam desde o acabamento até a estrutura do instrumento como um todo e de forma permanente. A limpeza do violão e das cordas em grande medida é realizada por panos de microfibra, pinceis e escovas com cerdas macias e alguns produtos específicos para regiões específicas como, por exemplo, o óleo de limão ou mineral para hidratar a escala.
Finalização e Últimos Passos

Com as cordas instaladas e afinadas, não toque ou guarde o instrumento ainda, pois ainda há alguns pequenos passos para ser realizados que vão garantir que todo esse processo funcione por muito tempo. Realize as seguintes verificações:
Teste de Trastejo
Toque nota por nota em todas as casas, de cima a baixo. Caso ouça algum tipo de zumbido, verifique se a corda está bem assentada no rastilho ou se o calibre novo exigirá um ajuste leve no tensor.
Inspeção Visual
Faça uma inspeção visual nos pinos (aço), nós (violões), pinos das tarraxas (cabeça do instrumento) e na pestana e rastilho do instrumento como um todo. Se um pino subiu um milímetro que seja ou o nó não está firme o bastante, afrouxe a corda e reencaixe-a imediatamente.
Limpeza de Resíduos
Use o seu pano de microfibra para remover as marcas de dedos que você deixou nas cordas novas durante a instalação. A oleosidade natural da pele é o que começa o processo de oxidação precoce.
Dica de Especialista
Trocar as cordas do violão gasta tempo e dinheiro. Para aumentar a duração das mesmas pelo máximo de tempo possível, sempre passe um pano seco em todas cordas por sua extensão após tocar, pois isso remove o suor e os minerais que as danificam e também prejudicam a qualidade do som.
Conheça nossos outros guias
Esperamos que esse guia de como trocar as corda do violão tenha lhe ajudado. Veja abaixo outros guias que podem lhe ajudar a entender melhor o violão como um todo, o que é essencial para quem deseja ou já está aprendendo esse belo instrumento e música como um todo.
- Como Limpar o Violão: Guia Completo de Limpeza e Preservação do Som (2026)
- Violão para Iniciantes: Guia de como Escolher (2026)
- História do Violão: Da Pré-História ao Brasil (Guia 2026)
- Madeiras para Violão: Guia Completo das Principais (2026)
- Partes do Violão: Guia Completo da Anatomia, Partes e Funções (2026)
- Tipos de Violão: Guia Definitivo e Como Escolher o Modelo Ideal (2026)

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